Porque sentimos a raiva de forma tão potente? E o amor menos?
Às vezes, parece que sentimos raiva, ódio e rancor com muito mais facilidade do que conseguimos amar. Mas por que a raiva tem tanta força? Por que ela nos atravessa como uma onda avassaladora, enquanto o amor parece frágil, quase tímido?
Esses dias, fiquei pensando sobre isso. Por que o amor parece delicado e a raiva tão potente? Por que é mais fácil se entregar ao impulso da raiva do que acolher o convite silencioso do amor? A raiva vem rápido — mobiliza, incendeia, convoca. É como se tocasse um nervo exposto. Já o amor… esse é olhado com desconfiança. Nos desarma, nos coloca diante das nossas fragilidades. É como se tivéssemos aprendido que é mais seguro se proteger do amor do que da raiva.
Essa dinâmica se repete em muitos espaços: nas famílias, nos relacionamentos amorosos, nas amizades — e até mesmo na clínica. Com as crianças, tudo começa diferente. Mas, aos poucos, elas também são atravessadas por um processo de “educação” que tem como base a violência simbólica (ou real).
E, ainda assim, amar continua sendo possível:
Amar o pôr do sol, a chuva. Amar as fugas e os recomeços. Amar os fins e até a tristeza — porque, da morte, também pode nascer algo novo. Amar as dores das separações, acreditando que o reencontro pode acontecer se estivermos firmes em nosso propósito de amar.
A sociedade em que vivemos prega, o tempo inteiro, uma relação imediata com a raiva. É mais um projeto de dominação patriarcal. Uma lógica que nos empurra a buscar saídas externas, rápidas e rasas para dores profundas. Isso nos conecta ao consumo, à pressa, à ansiedade. Nos faz construir certezas defensivas, enquanto nos afasta das dúvidas essenciais — aquelas que sustentam o nosso coração e a nossa abertura para a vida.
Sentir raiva é legítimo. Acolher a raiva, nomeá-la, vivê-la — isso é importante. Mas não é o fim do caminho. O problema é quando nos grudamos nela. A raiva cola. Oferece explicações fáceis para nossas dores e justifica nossas covardias.
